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domingo, 11 de agosto de 2024

Resenha do livro ''Notas Filosóficas''


Introdução

“Notas Filosóficas”, de Nicolas Rosa, é uma obra que explora diversas questões da contemporaneidade através de uma perspetiva filosófica crítica. Inspirado em “Humano, Demasiado Humano”, de Nietzsche, o autor traz reflexões sobre temas variados como ciência, religião, política, sociedade e a condição humana, oferecendo ao leitor um panorama amplo e provocativo sobre o pensamento moderno.

Estrutura e Organização

O livro é composto por ensaios independentes, cada um focado em um tema específico. Essa organização facilita a leitura e permite uma reflexão profunda sobre cada tópico abordado.

Principais Temas

A Condição Humana: Rosa explora a dualidade da natureza humana, capaz de grandes feitos e autodestruição. Ele questiona a sobrevivência da humanidade e a expansão para outros planetas. 

Ciência e Tecnologia: O autor critica a estagnação da ciência moderna e a inevitabilidade das inovações futuras, sugerindo uma maior responsabilidade na gestão dos impactos sociais das novas tecnologias.

Política e Sociedade: Rosa oferece críticas incisivas às ideologias políticas, tanto à esquerda quanto à direita, destacando o dogmatismo e a hipocrisia de ambos os lados.

Religião e Espiritualidade: Ele critica o cristianismo e o ateísmo por serem dogmáticos, propondo uma abordagem mais autêntica e natural da espiritualidade.

Pontos Fortes

Profundidade e Diversidade Temática: A obra aborda uma vasta gama de temas, proporcionando uma reflexão ampla e variada sobre questões contemporâneas.

Estilo Provocativo e Crítico: O estilo de Rosa é direto e provocativo, desafiando o leitor a reconsiderar suas crenças e perspetivas.

Clareza e Acessibilidade: Apesar da profundidade dos temas, a linguagem do autor é clara e acessível, tornando a filosofia mais próxima do leitor comum.

Referências Filosóficas Ricas: Rosa faz uso inteligente de referências filosóficas, especialmente de Nietzsche, para fundamentar suas reflexões e dar-lhes um contexto mais amplo.

Reflexão Crítica sobre a Sociedade Contemporânea: O autor oferece uma crítica incisiva das ideologias e práticas contemporâneas, incentivando uma reflexão crítica e independente.

Conclusão

“Notas Filosóficas”, de Nicolas Rosa, é uma obra rica e instigante que desafia o leitor a pensar criticamente sobre uma ampla gama de questões contemporâneas. Através de uma combinação de profundidade filosófica, clareza de linguagem e estilo provocativo, Rosa oferece uma contribuição valiosa para o debate intelectual moderno. É uma leitura recomendada para aqueles que buscam uma compreensão mais profunda e crítica da condição humana e dos desafios da modernidade.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

Master of Orion


Minha primeira experiência com Master of Orion foi há alguns anos, quando eu, quebrado como sempre, procurava jogos gratuitos na internet. Achei uma alternativa que não era pirataria: um site de jogos abandonware, cujos direitos tinham sido há muito tempo deixados para trás para suas produtoras. Achei joias maravilhosas em meio a eles, inclusive o primeiro Master of Orion. Esse jogo foi um dos primeiros 4X, surgindo na época de Civilization e Sid Meier´s Pirates, que também tive oportunidade de jogar.

Ele rodava num emulador Dosbox, que o site também tinha para baixar. Cada seção de jogo era única. Você definia os parâmetros de uma galáxia, quantas raças haveria nela, e então o jogo gerava um cenário de acordo com isso, que variava ainda mais graças a eventos aleatórios que davam ainda mais sabor ao jogo.

Cada raça tinha características próprias, como talento para a espionagem, diplomacia no caso dos humanos, habilidade com naves, maior fertilidade etc. o que tornava o jogo meio quebrado era que ter avanços nas pesquisas dava vantagens enormes em quase todo o resto, o que fazia os Psylons saírem na frente em quase todos os cenários que estivessem presentes.

O que era comum a todas as galáxias geradas, e que na parte central de uma delas, haveria sempre uma nave superpoderosa, que atacava qualquer um que se aproximasse dela. Quem a tirasse do caminho poderia conquistar o planeta título do jogo, Orion, que tinha artefatos raros que davam vantagens ao seu possuidor.

O jogo fazia referências a várias obras de ficção científica nos nomes das armas e itens destravados à medida que se avançava na árvore tecnológica, quando se obtinham equipamentos capazes de destroçar armadas e planetas inteiros com poucos ataques. Antes de chegar a esse nível, porém, havia algo a se olhar: o jogo tinha uma interação política muito bem programada onde você realizava comércio e trocava tecnologias com outras raças, e um Senado Galático onde poderia se vencer o jogo sendo eleito líder da Galáxia.

Se você fosse eleito, vitória imediata. Se um rival fosse eleito, você poderia aceitar a supremacia dele ou tentar desafiar todo o resto da Galáxia sozinho, numa batalha bastante ingrata e com pouca chance de vitória. O primeiro MoO tinha algo um tanto pesado, devido ao fato de só ser possível conquistar planetas exterminando a população inteira presente nele.

Os títulos posteriores se tornaram mais complexos, adicionando além da possibilidade de criar raças novas, tomar populações diferentes ao seu Império, tendo que administrar seus diferentes gostos e inclinações. Eu joguei o novo MoO e não fui muito longe nele, achando o MoO antigo mais simples e direto.

Ele tinha algumas sacadas maravilhosas, a exemplo do cuidado com a ecologia. Ele possuía diferentes tipos de planetas a serem colonizados, alguns com mais minerais, outros intermediários, outros com uma natureza mais abundante. Os planetas com mais minerais possibilitavam uma indústria mais próspera, e os com boa natureza permitiam a população se multiplicar mais.

Quanto mais indústria você tivesse, mais créditos você teria para construir seu Império, mas a indústria gerava poluição que afetava negativamente a população, que administrava as indústrias. Você tinha que manter em cada planeta um equilíbrio entre produção industrial e cuidados ecológicos para possibilitar sua população e indústria crescerem ao mesmo tempo. Deixar essa relação desequilibrada ao ponto de se gerar poluição quase nunca compensava. Quando pesquisas eram realizadas, você podia investir em terraformagem que aprimorava os biomas de cada planeta, ao ponto de transformar desertos radioativos em florestas verdejantes com o tempo.

Era maravilhoso ver cada planeta evoluindo a ponto de poder receber sua população máxima, cheio de indústrias que não geravam quase nenhuma poluição. A relação com os outros Imperadores era algo que também se evoluía com o tempo: quase sempre compensava estar em boas relações para fazer comércio com todo mundo que se pudesse, mas a gente ia aprendendo que tinha tecnologias que não valia a pena trocar por nada porque davam a eles grandes vantagens em troca de muito pouco.

Quase igual a gente tem que fazer na vida real com outras pessoas. Resumindo tudo: o antigo MoO é uma experiência sem igual, que vale cada hora investida nele, pois é um clássico que não envelhece e tem muito a ensinar. Quer você queira aprender sobre gestão, quer sobre criação de jogos, quer sobre ecologia e relações políticas, jogar algumas partidas de MoO vão te mostrar que com simplicidade e solidez, se chega longe.







 


domingo, 26 de novembro de 2023

Adeus, Jayme Figura


 Fiquei sabendo agora a pouco da perda de Jayme Figura. 

Isso termina uma era em Salvador. Me lembro de crescer vendo ele passando em meio aos carros e ônibus nas ruas centrais da cidade, andando em meio aos veículos como se fosse um deles. O que, coberto de latarias de metal, ele praticamente era, se você for pensar bem.  Era o Transformer humano, um Dom Quixote sem cavalo. Ouvi inumeráveis lendas sobre como ele se tornou o que era. Diziam que ele era um cara muito rico, que passou a achar a riqueza sem propósito, antecipou a herança da família, e pegou o pouco que sobrou para morar num sarcófago no Pelourinho.

Outros diziam que era simplesmente um cara que entrou em surto, abandonou o emprego e passou a peregrinar nas ruas da cidade, sempre com o rosto coberto com a máscara de ferro do príncipe de Alexandre Dumas. Havia quem dissesse que ele era casado e a esposa não fazia objeção ou não tinha como se opor ao que ele fazia. Alguma ou nenhuma de todas essas histórias pode ser verdadeira, mas acredito que isso não seja o que de fato interessa. Cheguei a apertar a mão a dele uma vez, há muitos anos, numa lanchonete. Não me lembro se ninguém sequer cobrava o que ele pedia. Ele apertava as mãos de todos, fazia mesuras respeitosas para as moças. Era saudado pelas pessoas, respondia os conhecidos, e em pouco tempo, continuava sua saga soteropolitana. Provavelmente nunca vamos saber porque ele realizava sua performance, ou se sequer encarava seu ato como performance e não como outra coisa. Isso permanecerá debaixo da máscara. 

O que nunca esquecerei é de como até os ônibus tentavam adequar suas rotas para evitar machucá-lo, como se máquinas carregando mais de 40 pessoas em pé e 60 pessoas sentadas fossem menos importantes que um simples andarilho, que seguia seu caminho metálico enquanto as outras pessoas circulavam dentro de caixas de metal e de vidro. Ele poderia estar tentando dizer alguma coisa, ou apenas achava legal andar com uma armadura completa debaixo de um sol de 40 graus. Que isso tenha mais propósito do que boa parte do que estamos fazendo, talvez tenha sido o que ele quis dizer o tempo todo. Adeus, querido Figura.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Situação na Austrália


Recentemente, uma cápsula com elemento semelhante ao do incidente de Goiânia, se perdeu numa zona distante do país.

Temendo que com os anos, a cápsula pudesse se desintegrar ou ser aberta por um desavisado, como ocorreu em nosso país, os australianos mobilizaram uma bela de uma força tarefa até achar o objeto, que não devia ser maior que uma moeda de 25 centavos, e talvez tivesse peso similar.

Não sei dizer se contadores Geiger tiveram alguma utilidade ou a galera teve de agir no puro olhomêtro usando a rota conhecida do transporte como referência, mas eles encontraram, aparentemente sem ter de montar todo um isolamento, Hazmats, etc, para capturar o item e juntá-lo aos seus iguais, aonde agora poderá ter um pouquinho mais de fama e horas-homem agregadas.

Nosso Estado sendo um dos fornecedores do Complexo de Angra, e tendo uma certa quantidade de equipamentos radiológicos espalhados, é conveniente para nós, bombeiros e outras profissões relacionadas ao mundo da emergência, estudarmos como se dão incidentes radioativos, além dos químico/biológicos/radioativos que temos alguma instrução.

Eu lembro a maneira bastante dramática que o livro Caçada ao Outubro Vermelho e o filme K9: The Widowmaker, falavam de acidentes desse tipo em submarinos, aonde ao se abrir a escotilha para sair tudo que havia era mais água que o próprio veículo, e o motor necessário para tirá-lo de lá estava em chamas e espalhando raios x e gama em quase tudo que entrasse em contato.

Eu não creio que chegaremos perto de enfrentar situações críticas como essa ou as que levaram ao Sarcófago de Chernobil.

Porém, ainda assim, buscar entender como a radiação, ionizante ou não, funciona, é a chave para conseguir dominar outros conhecimentos úteis, que podem vir a ser de valia no futuro.

quarta-feira, 6 de abril de 2022

Jogos da Pais&Filhos

 


       O Hiper do Galinho me mandou fotos dos jogos que eles possuem.

       Em ''Pulo do Gato'', o objetivo é posicionar um gato numa torre que cresce a cada vez que o jogo avança.

       No ''Faça Face'' o objetivo é montar rostos até corresponderem a um modelo padrão.

        No ''Aprendendo as Horas'', cada jogador precisa avançar com seu relógio até o meio dia, antes dos outros.

       O ''Constru-shop'' é uma espécie de dominó no qual cada jogador monta um pequeno shopping, encaixando lojas uma com as outras para fazer um shopping melhor que os adversários.

        O ''Jogo do Mico'' e a ''Arca de Noé'' são jogos de memória envolvendo casais de animais.

        Eles também possuem um jogo sobre o trânsito, que não estava disponível na loja, e tem uma pequena maleta de mágicas.




domingo, 19 de dezembro de 2021

Notas Filósoficas. 39: Da Revolução Brasileira

 

             O que torna mais difícil uma grande revolução no Brasil, é um fato simples da política; nem todo mundo que é confiável é competente, nem todo mundo que é competente é confiável. Se uma possível revolução não tiver a disposição um bom número de pessoas ao mesmo tempo confiáveis e competentes, ele irá falhar miseravelmente e deixar o país numa situação pior do que antes dela ser declarada.

               Temos muita gente que gostaria que nosso país tivesse protagonismo como a Rússia, a Índia e a China, mas pouca gente disposta a viver o que a Rússia, a Índia e a China passaram, ou tampouco viver num país cujos direitos civis e trabalhistas sejam iguais aos dos países citados.  

                Líderes como Amilcar Cabral, Nehru, e Mustapha Kemal, entre outros, podem nos mostrar possíveis caminhos, mas para efetivarmos as mudanças que o Brasil precisa para se afirmar como potência, teremos de buscar um caminho novo, ao invés de meramente copiarmos cegamente os modelos de outros países.

sábado, 1 de maio de 2021

SOBRE A CIÊNCIA E O SENSO COMUM

Autores como Olavo de Carvalho, Ayn Rand e outros tem certa popularidade porque usam uma retórica falsamente científica, mas que apela fortemente para o senso comum. A ciência, por si só, não é superior ao senso comum, muito pelo contrário.

Ela só se tornou possível, graças a Filosofia, que nos seus primórdios extraía premissas das situações utilizando o senso comum como ferramenta de investigação.

Cientistas geniais podem cometer erros graves se não utilizarem o senso comum, ou pelo menos o bom senso, para realizar seus projetos. Uma pessoa sem grandes qualificações acadêmicas, mas que tenha bom senso, pode ir mais longe do que um super pensador que não tem sabedoria.

A raiz da questão é saber delimitar o espaço de cada coisa. Ciência é ciência, senso comum é senso comum. A ciência nos ajuda a alcançar alturas maiores, o senso comum, ou pelo menos o bom senso, nos ajuda a não cairmos de já onde estamos.

E assim a gente segue nosso caminho.

domingo, 11 de abril de 2021

Reflexão sobre a Educação

Texto de um trabalho realizado na UNEB, no qual se pedia que se fizesse uma reflexão sobre Educação.


''Em todas as instituições de ensino que estudei e trabalhei, via uma contradição expressa entre a retórica progressista e a prática efetiva que elas realizavam. Nas escolas particulares, mesmo eles praticando uma pedagogia formalmente libertária, eu via os professores e funcionários tendo que trabalhar anos seguidos sem sequer terem reposição de inflação, e sem poderem fazer greves devido a isso porque sabiam que seriam demitidos na primeira oportunidade.

Na escola pública, por outro lado, eu via os piores professores e alunos, em todos os sentidos, serem justamente os que mais puxavam greves, ambicionando cargos na estrutura escolar e do movimento estudantil.

Eu via escolas que falavam em ‘’educação inclusiva’’, em formar o ‘’sujeito histórico-crítico’’, deixarem os alunos a mercê de professores e coordenadores que praticavam todos os tipos de abusos porque eles eram apoiadores da direção ou da reitoria.

Além disso, eles falavam sobre ‘’promover a saúde mental’’, e não faziam nada em relação aos alunos, professores e funcionários que entravam em colapso nervoso todos os dias devido a carga estressante de estudos e trabalho, sem contar o clima de perseguição aonde aqueles que fossem pegos no menor deslize sofriam processos e sindicâncias.

Ao mesmo tempo em que eles criticavam a ‘’educação bancária’’, faziam questão de exibir a quantidade de alunos que conseguiam mandar para os cursos mais cobiçados de faculdades importantes, não importando para isso que a vida social e afetiva dos alunos fossem totalmente destruídas no processo.

Isso me deixou com a impressão de que boa parte do que se fala na Educação é apenas retórica. Sim, acabaram as palmatórias, o rezar no milho, as cartas recomendando aos pais darem uma surra nos filhos por terem se comportado mal na escola.

Existem cada vez menos pais e professores que dizem que para o aluno que ‘’se ele não estudar, só vai servir para ser vigilante noturno, auxiliar de serviços gerais, frentista de posto ou para ser vagabundo. ’’ Esse é um ameaça psicológica que está tão manjada, que os filhos e alunos tendem a cair cada vez menos nela. O filho ou aluno podem simplesmente responder de volta: ‘’E o senhor, que estudou tanto, só conseguiu ser um assalariadozinho de terceiro escalão e vai morrer tendo uma aposentadoria medíocre. ’’

Hoje em dia, porém, é o próprio sistema que se encarrega de dizer isso as pessoas, através de um código moral que divide a sociedade agudamente entre os vencedores, que conseguiram responder com sucesso aos desafios da vida, e os fracassados, que por não conseguirem aguentar o peso das crescentes responsabilidades que surgem no mundo moderno, acabam sendo relegados ao desemprego ou as funções que os vencedores não desejam.

Apesar de toda a retórica igualitária e progressista, a escola é um dos espaços aonde essa lógica dos vencedores e fracassados se apresenta de forma mais contundente. Há os vencedores, que tiram boas notas, são populares tanto com os professores como com a maioria dos colegas e tem várias namoradas, e há os fracassados, que tiram notas ruins, os professores e colegas apenas toleram, e tem chances consideráveis de chegarem à idade adulta ainda virgens e sem ninguém.

Apesar de existir uma falsa ideia, difundida pela mídia, de que ‘’um dia os nerds é que vão ser os patrões enquanto os populares vão ser os empregados’’, quem já é excluído na escola dificilmente vai chegar longe na vida. Vão ter uma carreira profissional confusa e errática, uma vida amorosa e familiar marcada pela baixa auto-estima e pelos traumas da juventude, uma vida social pior ainda.

E nem mesmo aqueles que foram ‘’vencedores’’ na escola estão a salvo de sofrerem o mesmo destino, porque quando entrarem no mundo adulto, aonde sua popularidade da adolescência não tem valor, eles podem entrar num processo de angústia existencial para o qual não foram preparados, porque não foram forçados a amadurecer já na juventude.

A educação falsamente progressista, que alega ser libertária, mas não combate na raiz a dicotomia entre vencedores e fracassados imposta pela sociedade burguesa, é uma educação que serve apenas como reprodutora de mão de obra para o sistema, sob a falsa premissa de que estaria libertando o trabalhador ou o cidadão ao oferecer a  ele uma ‘’formação crítica’’, e ainda assim fortemente enviesada e partidária.

Essa educação só tolera críticas a classes externas a ela, como a alta burguesia, a classe média conservadora e aos empresários, pois quando se fazem criticas a sua relação promíscua com a política, sua visão pequeno-burguesa do mundo, ou os seus próprios pequenos privilégios, ela busca desqualificar cruelmente quem põe tais pontos em questão.

Caso aquele professor que surgiu no filme ‘’A Sociedade dos Poetas Mortos’’ fosse transportado para os tempos de hoje, ficaria surpreso como, apesar da educação ser muito menos repressiva do que a da época retratada no filme, ela permite existir um clima de crueldade mental aonde os alunos se matam de estudar sem terem garantias de que encontrarão bons empregos quando se formarem, e os professores, assoberbados de trabalho, literalmente se matam por não conseguirem encontrar uma razão para o que estão fazendo, porque não conseguem mais enganar os alunos com a promessa de um futuro radiante que não enxergam nem para si nem para os próprios filhos.

Por isso, eu acredito que para resinificarmos a Educação em relação ao clima de estagnação na qual ela se encontra, e criarmos um ambiente escolar aonde os alunos possam realmente se expressar como seres humanos completos e complexos, precisamos primeiro rever nossa própria visão de sociedade, e pararmos de sermos progressistas na retórica, e repressivos nas práticas efetivas que realizamos.''

quinta-feira, 25 de março de 2021

O professor de História ainda é necessário?

Por Nicolas Oliver

Texto para o curso de História, da UNEB.  


       Li um artigo que me deixou muito perturbado: o artigo dizia que o QI das novas gerações tinha decaído em relação ao da geração anterior, e que a possível culpa desse fato estava no excesso de exposição a mídias eletrônicas desde a mais tenra idade. O cientista que foi entrevistado no artigo dizia que intoxicação digital estava funcionando como ‘’uma fábrica de cretinos digitais’’, incapazes de realizar pensamento crítico, raciocínio lógico, e com a inteligência motora e social afetada.
       Outro artigo que li dizia que as novas gerações, além disso, tenderiam a serem mais pobre do que seus pais e avós, não só porque crescerão num ambiente sem estabilidade profissional e com menos garantias sociais que dificultarão a aquisição da casa própria, como também gastariam muito mais com tratamentos de doenças como depressão e outras questões psicológicas, causadas pelo estresse mental e pela falta de referências sólidas do mundo contemporâneo.
        Assim, as novas gerações estariam condenadas a viver num mundo falido, em eterno descontentamento e incapazes de compreender como foram parar nessa situação. O pouco que conseguirem aprender de Português, Matemática e Ciências apenas lhes serviria para conseguirem uma vida materialmente menos pior, mas não resolveria o crescente vazio existencial que as assola.
         Quando fiz as provas para exercer meu emprego atual, escolhi como tema de Redação fazer uma análise de figuras como Bel Pesce (‘’A menina do Vale’’) e Eike Batista (‘’O Eike Xiaoping’’), que tiveram ascensões meteóricas, como todo mundo querendo ser igual a eles e copiar seus aparentes exemplos de sucesso, e depois caíram da noite para o dia, virando motivos de chacota e opróbrio.
Não tenho mais a cópia da redação em questão, mas lembro de na mesma, ter deplorado o fato de que a sociedade tem tendência a escolher como modelos de conduta indivíduos terrivelmente falhos, cuja decepção que geram acaba criando apatia nas pessoas, que por causa disso deixam de seguir qualquer um que traga ideias diferentes de como fazer as coisas.
         Acho que ensinar as pessoas a diferenciar os verdadeiros inovadores dos falsos profetas seja a principal função não só do professor de História, mas das Ciências Humanas em geral. O historiador deve preparar as massas para respeitarem e seguirem líderes como Angela Merkel e Barack Obama, e rejeitarem aventureiros como Berlusconi e Trump, mostrando os pontos fortes e fracos dos grandes líderes do passado e como eles chegaram a glória ou ao fracasso nos caminhos que escolheram.
         Na minha trajetória política, por exemplo, cometi mais erros que acertos. Acreditei que as Jornadas de Junho fariam ‘’o gigante acordar’’, e ele continuou dormindo, acreditei em figuras como Cristovam Buarque, Marina Silva e Tábata do Amaral e os vi, um após o outro, contradizerem através de ações o que falavam através de palavras, e tantas outras decepções.
         Através do ensino da História, pretendo que os jovens do futuro estejam habilitados a intervir no cenário político de forma muito mais produtiva do que eu, mantendo seu idealismo e esperança sem deixarem de analisar friamente a realidade e suas vicissitudes.
        Observo com certa desconfiança, por exemplo, um influencer como Felipe Neto ser alçado ao posto de porta-voz da resistência ao bolsonarismo, por ter sofrido perseguição legal devido as suas posições. O mesmo Felipe Neto, anteriormente, havia usado de sua influência para dizer que o ensino de Machado de Assis nas escolas não era necessário, devido ao fato dele e outros autores nacionais serem ‘’chatos’’ para a juventude.
        Esta foi uma fala muito perigosa, porque as crianças e jovens dos países desenvolvidos não deixam de estudar Shakespeare, Poe ou Orwell porque são ‘’chatos’’ para eles. Quando se tornam adultos, elas passam a produzir os filmes, livros e videogames que as nossas crianças passam horas assistindo, lendo e jogando, o que só serve para perpetuar nossa dependência e subordinação, tanto cultural quanto econômica, em relação a esses países.
         Por essas e outras razões, caso o campo progressista um dia volte ao poder, Filipe Neto tem grande potencial para se tornar uma nova Tábata, alguém que vai contrariar todas as expectativas daqueles que confiaram nele, caso ele chegue ao poder após se candidatar a um cargo político.
          Numa sociedade aonde os historiadores e demais cientistas sociais cumprem suas funções a contento, as pessoas aprendem a não esperar mais por príncipes encantados montados em cavalos brancos, mas dão poder a líderes equilibrados e razoáveis, que criam um círculo virtuoso de boa vontade e prosperidade na sociedade.
          Assim, pode-se concluir que o historiador, em vez de ser um mero entusiasta do passado, tem um importante papel na construção do futuro, ao ser um fiador da qualidade do processo democrático. A ele cabe ajudar a evitar que o mundo, sem referências nem esperança, degenere numa distopia pós-apocalíptica regida apenas pela lei dos mais forte.

domingo, 21 de março de 2021

O Professor de História e a Contemporaneidade



   
Texto feito para a graduação em História na UNEB, como trabalho de sala.

      Enxergo História como um curso muito subestimado. Quando falam de História, as pessoas no mínimo dizem que, assim como o resto das graduações de Humanas ou da docência, ela é uma graduação sem futuro, que além de ter cada vez menos empregos disponíveis, tem um mercado crescentemente saturado, aonde milhares de profissionais são jogados nas ruas a cada ano, para competir com as dezenas de milhares que já existem. As Ciências Sociais ainda enfrentam o estigma de serem cursos alegadamente procurados por pessoas que entram na faculdade para participar do movimento estudantil e da politica em vez de buscarem serem bons estudantes na área que escolheram.
      Segundo os detratores, depois de ficar dez ou mais anos fazendo um curso que deveriam ter feito em quatro ou cinco, os egressos vão geralmente para a Educação Pública, aonde passarão mais tempo planejando greves, conspirando para manipular as eleições de diretores, e doutrinando os alunos a se filiarem a partidos políticos, do que de fato ensinando qualquer coisa que seja proveitosa aos alunos na faculdade e no mercado de trabalho.
     É inegável que tal estereótipo tem certa base na realidade, porque convivi, nas escolas em que estudei e trabalhei ao longo da vida, com pessoas e grupos que se encaixam nele quase ao ponto do caricatural. Os praticantes desses tipos de atos geralmente justificam esse desserviço que prestam a Educação com a frase de efeito ‘’mas tudo o que fazemos é um ato político!’’, como desculpa para poderem praticar política no pior sentido do termo, de forma faccional e enviesada.
     Felizmente eles são uma minoria na Educação, que na grande maioria é formada por pessoas que levam muito a sério suas funções, e cuja ação política é dar aos alunos as melhores aulas e assistência pedagógica que as condições lhes permitem, e até além do que é esperado pelos regulamentos. Diante dessa realidade, fica óbvio que o clichê do ‘’professor doutrinador’’ é apenas um espantalho manipulado habilmente por pessoas que promovendo grupos como o infame ‘’Escola sem Partido’’, são bastante partidárias e faccionalistas elas próprias.
      Todavia, é ilusão esperar que uma graduação possa mudar as perspectivas espirituais e profissionais de uma pessoa. Quem chega a faculdade sem uma visão de mundo já formada dificilmente vai conseguir manter a que adquiriu nela após confrontar a realidade profissional efetiva, e quem já não tiver uma carreira profissional já em processo de construção dificilmente vai melhorar isso graças à faculdade.
     Quando as pessoas esperam demais de uma graduação ou formação profissional, quase sempre acabam se desiludindo quando a vivência real não corresponde as expectativas. O curso de História, assim como qualquer outro, deve servir como complemento a um planejamento profissional anterior e maior, e não como o centro de todos os planos da pessoa. Se ela não fizer isso, pode se desiludir ao enfrentar um mercado de trabalho competitivo e hostil, aonde todos os esforços que ela fez para se qualificar com distinção não tem valor algum.
      Acho errado, porém, subestimarem História como um curso sem futuro, porque conheci várias pessoas, que ainda que não trabalhem na área de formação, conseguiram boas colocações na política e no serviço público, e ascensão no serviço privado, graças a graduação que fizeram. Sim, existem muitos historiadores desempregados ou empregados de forma precária, mas hoje em dia pode se dizer o mesmo de muitos engenheiros, advogados e até mesmo médicos.
     Quanto a função política do professor de História, sempre acreditei que o civismo e o patriotismo devem vir a frente de qualquer posição partidária ou filosófica que porventura ele tenha. Já chegaram a me dizer que o ‘’civismo’’ é um termo herdado da ditadura, mas eu pessoalmente não me importo com essa alegada conotação negativa.
      Considero um desperdício ver professores que jogam fora o potencial intelectual dos seus alunos ensinando-os a idolatrar Marx, Lenin e Che Guevara, ou então Mises, Hayek e Thatcher, e não apresentam a eles figuras como o Barão de Mauá, o Marechal Rondon, ou Cipriano Barata.
     Para mim a História deveria instilar nos alunos não a luta de classes nem a falsa meritocracia, mas acima de tudo o orgulho de terem nascido e crescido num país que já foi habitado por indivíduos portadores de grande talento, força de vontade e envergadura moral. Se sentindo herdeiros desse legado, eles procurariam emular essa grandeza em suas vidas pessoais, em vez de perderem tempo com visões equivocadas e alienígenas de como o mundo funciona.
      Assim como todos os países, nós temos o que poderia ser chamado de ‘’Legado Cívico’’ herdado de regimes e modos de produção anteriores, e a História, a meu ver, pode ser a ferramenta para transformar a força bruta e inexplorada deste Legado em energia para mudar nossa realidade para melhor, superando as contradições internas de nosso desenvolvimento e criando uma pátria próspera e segura para todos.



sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Bolsonaro, Guerrilheiro e Revolucionário

                                    

       A esquerda comete um grande erro em relação ao Presidente da República, o Sr. Jair Messias Bolsonaro. Esse equívoco, bastante infantil por sinal, consiste em insistir em achar que o Presidente, após conseguir ser eleito para variados pleitos legislativos há quase 30 anos seguidos, eleger 3 filhos e variados apoiadores Brasil afora, vencer a última eleição presidencial, e passar incólume por vários escândalos e pedidos de impeachment, é um ser completamente imbecil, desprovido de qualquer réstia de inteligência. Sim, é inegável que além de não possuir nenhum refinamento e decoro, ele ainda se orgulha desse fato- mas isso está muito longe de não possuir inteligência.

     Na verdade, o Presidente possui um tipo muito específico de inteligência, o mesmo apresentado por figuras como Benito Mussolini, Joseph Stálin, Francisco Franco e Idi Amim Dada; um profundo senso de oportunidade política, um tipo de inteligência na qual o indivíduo inclusive se faz, propositalmente, ser enxergado como estúpido por seus adversários, que por sua vez, ao se enxergarem como seres muito inteligentes, o subestimam enquanto ele vai crescendo no nos bastidores e no submundo, até ser tarde demais para impedi-lo de conseguir o que quer. Os possuidores desse tipo de inteligência surpreendem aqueles que se recusam a enxergar seu paulatino avanço dentro das instituições, subvertendo-as a medida que vão se infiltrando nelas.

    Os arrogantes e destreinados apenas enxergam essa realidade quando ela, já completamente tomada, se torna irreversível. No caso específico de Bolsonaro, é possível dizer algo mais: ele aprendeu a ser revolucionário, enquanto a esquerda, por sua vez, se tornou conservadora. O leitor pode querer parar o texto nessa parte, mas peço que tenha paciência para continuar, e me permita explicar porque escrevo o que escrevo.

    Dentro de uma visão militar, revolucionário é aquele que se propõe a lutar contra uma dada ordem estabelecida, a partir de uma posição inicial de desvantagem, para através de uma conflagração revolucionária, mudar a ordem a seu favor. Conservador, por sua vez, é aquele que, sendo favorecido pela ordem estabelecida, deseja que tudo continue como está, ou evolua apenas no sentido de favorecê-lo. Desse ponto de vista, a esquerda então dominante poderia ser classificada como A Ordem, o establishment por excelência, enquanto o grupo formado por MBL, Lobão, Moro, Olavo de Carvalho, e o próprio Bolsonaro, eram La Résistance, os rebeldes contra essa dita ordem, que teria passado a dominar o Brasil a partir das eleições de 2002.

    Comparado aos outros guerrilheiros da direita, porém, Bolsonaro possuía uma vantagem: uma plena consciência, possivelmente ganha através de seu treinamento como oficial das FFAA, de que estava travando uma guerra cultural, ou disputa de narrativas, da qual sairia vencedor no longo prazo, graças a muita paciência e sangue frio. A vitória de Bolsonaro em 2018 se deveu justamente a utilizar estratégias tomadas de George Washington, Mao Zedong e Fidel Castro, estratégias que o resto da direita considera heresias e a esquerda desaprendeu a utilizar. Entre elas, estariam as seguintes:

1) Apenas desafie o inimigo para uma batalha campal, depois de tê-lo esgotado através da guerrilha e da subversão:

    Bolsonaro passou anos ajudando a desmoralizar a esquerda, através de sua atuação no Legislativo, mas só realizou uma ofensiva para o cargo executivo mais elevado, quando teve plena certeza de que poderia vencer a disputa.

2) Se alimente dos recursos do seu inimigo:

     Bolsonaro passou parte considerável de sua carreira em partidos da base aliada tanto do PSDB como do PT, recebendo repasses dos próprios operadores financeiros de seus dois maiores adversários. Isso gerava ainda maior vergonha para eles, por não poderem removê-lo do cenário sem receberem punições dos próprios partidos que constituíam sua base de apoio.

3) Converta os maiores apoiadores de seu inimigo nos seus soldados mais fanáticos:

     Um número não pequeno de apoiadores de Bolsonaro, consiste de gente que votava no PT ou em outros partidos de esquerda, não raro desde 1989. Essas pessoas, que eram defensoras fanáticas do PT e de Lula, se tornaram os apoiadores mais fervorosos de Bolsonaro. São pessoas que, desiludidas com a corrupção e decadência da esquerda tradicional, abandonaram seu antigo messias, buscando um novo profeta para tomar seu lugar.

4) Deixe os adversários e concorrentes se autodestruírem ou se matarem entre si:

   Foi o que aconteceu tanto como líderes progressistas, como Cristovam Buarque, Marina Silva, e o próprio Lula, como com aqueles vistos como conservadores, como Aécio, Alckmin, Moro, etc… Bolsonaro deixou todas essas figuras se desgastarem ou brigando entre si, ou com a Justiça e a mídia, enquanto mantinha sua imagem intacta. Dessa forma, dentro da direita e do centro, não existe possibilidade de surgir tão cedo alguém que possa tomar seu lugar, e a esquerda está dividida por disputas partidárias e ideológicas, sem se decidir por um líder capaz de desafiá-lo.

5) Demonstre força moral:

    Enquanto o campo progressista se deixou mostrar como imoral, depravado e corrupto, Bolsonaro construiu cuidadosamente para si uma imagem diametralmente oposta: a de alguém integro, correto, que se importa com os valores da família. Pouco importa se a imagem da esquerda se tornou manchada devido aos atos de uma minoria que não representa o todo, e que a imagem projetada por Bolsonaro não engane quem faz uma análise crítica de sua trajetória: é essa narrativa que foi vendida para a massa do público, e não irá se desfazer tão cedo. 
     Bolsonaro ainda possui, perante seus apoiadores, a imagem de alguém ingênuo e emotivo, que comete erros algumas vezes, mas que deseja honestamente fazer o bem. A imagem que o campo progressista possui, por sua vez, é a de um bando de pequeno-burgueses, corruptos, estrangeirados e afeminados, que disputam entre si para ver quem vai ter o direito de dilapidar e corromper o país quando voltar ao governo. 


      Por fim, esses cinco tópicos demonstram não só a razão da estratégia vitoriosa da campanha de Bolsonaro em 2018, mas também parte da motivação da posição dele no poder se demonstrar tão sólida mesmo havendo tanta oposição ao seu governo. Uma campanha progressista que queira superar Bolsonaro precisa, em parte, fazer o que ele fez: se voltar a um estudo sério dos líderes revolucionários, e líderes revolucionários diversos, e não apenas aqueles que a esquerda tradicional estuda ou finge estudar, para aprender como a construir uma narrativa que possa desconstruir a rede de mentiras e falsas verdades que o olavo-bolsonarismo construiu para chegar ao poder.
      Se trata de uma luta difícil, que envolve, em primeiro lugar, superar as próprias contradições no seio do campo progressista, mas que pode dar frutos num futuro não muito distante. Os americanos, dando ao mafioso e escroque profissional Donald Trump uma merecida derrota, já demonstraram que isso é possível. Além dos líderes já citados, o estudo de figuras como Sun Tzu, Saul Alinsky e Amílcar Cabral pode demonstrar o caminho certo. Quando se pararem de seguir líderes ultrapassados e modelos anacrônicos, talvez seja possível ao campo progressista reconquistar o espaço perdido.

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Concurso Distrital de Oratória- ''Discurso de Ódio''



Este mês, no dia 19/09/2020, participei do Concurso Distrital de Oratória do Distrito 4391 do Rotaract, escolhendo como tema do meu discurso “O papel do Rotaractiano frente aos crimes de ódio: conflitos e possibilidades.” Segue abaixo uma cópia do texto que escrevi para discursar no dia da competição. 

Contextualização: O discurso de ódio e a violência contra determinadas populações nunca ficaram tão em evidência como nos últimos anos. Em 2018, divergências políticas escancararam diversos episódios, ocasionando em média 33 ocorrências de crimes de ódio por dia, segundo o Mapa do Ódio realizado pela Words Heal the World. Pregando valores na contramão da chamada “epidemia do ódio”, a instituição a qual pertencemos tem um papel claro como agente de transformação social e potencial formador de opinião.

      O grande líder Nelson Mandela tinha o seguinte pensamento: ‘’Ninguém nasce odiando outra pessoa por causa de sua cor de pele, religião ou origem. As pessoas são ensinadas a odiar. E se elas podem ser ensinadas a odiar, podem, ao invés disso, serem ensinadas a amar.’’ Essa frase do Mandela deixa bem claro que o ódio não é natural do ser humano, mas é algo ensinado culturalmente a ele por grupos de poder, que buscam vantagens políticas e econômicas sobre os grupos que são discriminados e marginalizados.

       Hoje em dia, apesar das pessoas estarem cada vez mais conectadas através do mundo virtual, as sociedades estão cada vez mais divididas por variadas questões: divergências políticas, religiosas, étnicas, entre outras. Além disso, apesar das minorias sociais terem conquistado cada vez mais direitos através de suas lutas, parece que esse fato gera reações cada vez mais violentas por parte daqueles que são contra a efetivação de tais direitos.

        As eleições de 2018, no Brasil, levaram a um recrudescimento dos crimes de ódio, e o caso mais emblemático disso foi o assassinato do capoeirista Mestre Moa do Katendê, após um acalorado debate sobre política nm bar de Salvador. A disputa entre o dito campo conservador e o autodenominado campo progressista, não só no Brasil como no resto dos países ocidentais, gerou um clima de guerra dentro da sociedade, aonde ambos os lados trocam agressões e ofensas crescentes.

      Esse clima de guerra foi adicionado a uma realidade já preocupante, aonde problemas como o racismo, misoginia, capacitismo, homofobia e outras questões afetam as pessoas há décadas, quando não há séculos. Essa situação gera desesperança, pois faz acreditar que existem mais pessoas e grupos dedicadas a promover a raiva, o ressentimento e a tristeza, do que aquelas que desejam promover o bem.

     O papel do rotaractiano, nesse contexto, é ajudar a fazer prevalecer justamente o contrário disso, é ajudar a fazer prevalecer justamente o contrário, demonstrando para aqueles que sofrem, que existe alguém que se importa com seu sofrimento. O discurso de ódio existe por uma razão: porque há aqueles que reagem a ele com o mesmo rancor e despeito com o qual ele é construído.

     Essa forma de reagir é algo desejado pelo disseminador do ódio, porque permite a ele demonstrar a sus seguidores que ‘’O Inimigo’’ se sente incomodado pela causa que ele defende. Ao invés disso, o rotaractiano pode demonstrar aos ofendidos que existem formas mais produtivas de se reagir ao discurso de ódio, procurando a proteção da lei, e o apoio de outras pessoas que passam por situações semelhantes.

     Em relação a quem propaga o discurso de ódio, é possível exortá-lo, de forma didática e respeitosa, de que aquilo que ele faz não é bom para sociedade e não tem espaço no mundo moderno. Se essa pessoa tiver boa vontade, irá buscar mudar seu modo de pensar e agir, progredindo como ser humano. Caso não o faça, estará condenando a si mesma a ficar cada vez mais isolada, tendendo a se tornar cada vez mais irrelevante a medida que a sociedade evolui.


domingo, 19 de julho de 2020

Os limites do humor



Eu acompanhava os vídeos do influenciador Mário Júnior através de minha noiva, que me mostrava no seu celular gravações originais e paródias editadas, das produções do jovem rapaz. Ver esses vídeos eram uma parte divertida dos meus dias de quarentena, num época aonde existem tantas pessoas sofrendo. Para minha triste surpresa, ela me passou um vídeo mostrando o jovem em questão quase chorando, após ser humilhado numa entrevista com a equipe do Pânico na TV. Senti uma grande pena do rapaz, e revolta diante da tremenda insensibilidade dos entrevistadores. Eles puniram Mário pelo crime de ser melhor humorista do que eles jamais seriam, pois produzem um humor decadente e apelativo que não chega aos pés do que ele produz.

Senti vergonha de mim mesmo, por, quando mais jovem, acompanhar o Pânico, e sentir graça de piadas que hoje percebo não terem graça nenhuma. Piadas humilhando mulheres, minorias, pessoas em situação de rua e várias outras categorias de pessoas que já sofrem o suficiente sem ninguém ficar tripudiando delas.

Há não muito tempo atrás, lembro que o auto-denominado‘’humorista’’ Danillo Gentili fez piada com uma mulher que doava leite materno para mães que, por variadas razões , não conseguiam fornecer leite para os próprios filhos. A mulher processou o ‘’humorista’’ e logrou vitória, porém teria ficado tão traumatizada com a situação, que não conseguiu fornecer leite, privando várias crianças desse alimento tão vital, que ela fornecia sem esperar nenhum ganho por isso além da satisfação de fazer o bem.

Da mesma forma os ‘’humoristas’’ do Pânico, quiseram tirar vantagem do jovem Mário Júnior, que através de sua arte, produzia felicidade para pessoas que, além de todas as dificuldades que passavam normalmente em suas vidas, sofrem com os efeitos da crise mundial do COVID-19. Diante disso, fica a pergunta: a quem serve um ‘’humor’’ que ao invés de deixar as pessoas felizes e motivadas, apela para os instintos mais baixos do ser humano, como a inveja, o senso de superioridade e o despeito? Como bombeiro militar, cuja função, junto com meus colegas de farda, é salvar vidas, me solidarizo com o jovem Mário Júnior, pois ele pode ter ajudado a evitar que várias pessoas fizessem mal a si mesmas, por se sentirem felizes e acolhidas pelas mensagens de amor e esperança que ele passa.

Não é verdade que o seu trabalho, jovem Mário, é algo passageiro e que será logo esquecido quando surgirem outras novidades. Você poderá não ter a mesma visibilidade de agora, mas tem potencial para evoluir muito mais nas artes cênicas, estudando e aprimorando o talento nato que você possui. Mantenha a força, e grande abraço.

terça-feira, 30 de junho de 2020

Pedagogia do Interregno



Texto realizado na UNILAB, no ano de 2017, como resposta a uma atividade sobre Boaventura de Sousa Santos.

''Ao invés de fazer perguntas separadas, achei mais apropriado deixar meus questionamentos num único texto. Acredito numa alternativa algo diferente da proposta por Boaventura de Sousa. Eu acredito que os problemas que hoje afetam países como o nosso poderiam ser resolvidos através de uma narrativa heroica, que unificasse o povo em torno de um projeto nacional.

Acredito que a alternativa proposta por Boaventura não tem viabilidade devido a dois grandes fatores. Primeiro, depende de uma solidariedade internacional difícil de sustentar diante das divergências de interesses locais, e segunda, deriva de uma esquerda que está tão esgotada quanto as outras ideologias de origem ocidental.

A pedagogia libertadora que ele propõe, não é de interesse sequer aos governos e regimes de cunho progressista, porque o que eles chamam de educação libertadora é na prática formação de militantes partidários ou de causas sociais restritas, e é na prática tão conformista quanto a educação hegemônica a que se propõe como antítese.

A época atual aparenta ser nebulosa porque se trata de uma época de interregno, aonde a liderança euro-americana está ao pouco sendo substituída por uma liderança sino-indiana; e como a existência da ameaça nuclear e a interdependência financeira impossibilitam a troca de liderança através de uma guerra aberta, ela ocorre através de um lento apodrecimento da hegemonia euro-americana, enquanto o novo núcleo, também em situação questionável, amadurece para assumir seu lugar, podendo definir uma nova ordem mundial no processo.

Uma pedagogia mais adequada a essa realidade, aonde cada país ou bloco regional teria de aprender a sobreviver por si mesmo num mundo crescentemente desregulado e sem leis claras, poderia ser chamado de pedagogia do interregno. Seria uma pedagogia centrada em valores como orgulho nacional, civismo, e dever, valores deixados de lado tanto pela elite liberal como pela esquerda nos anos 90, e que poderiam fazer emergir da juventude uma vanguarda que liderasse o país pelo exemplo, permitindo a superação da crise econômica e do esgotamento moral que ocorrem atualmente.''

domingo, 8 de dezembro de 2019

A Vivência da Língua

Ter um bom domínio de uma língua estrangeira se tornou cada vez mais capital nos novos tempos. Com isso em mente, enveredei no curso de Letras com Inglês para poder fazer minha vida suprindo essa crescente necessidade das pessoas. Durante meu aprendizado, percebi diversas situações interessantes, como por exemplo, que pessoas que trabalham em áreas que exigem bastante uso de termos da Língua Estrangeira não têm necessariamente proficiência no uso da Língua mesmo sendo profissionais capazes, e que há algumas outras, que mesmo sem frequentarem regulamente qualquer tipo de curso ou tutoria, tem habilidade bastante razoável, e bom conhecimento dos termos e frases ligados àquilo que as interessam; música, uma celebridade, um campo específico da ciência, etc...

Essas pessoas atingiram tal capacidade através da construção de vivencias na Língua, geralmente tendo a mesma como um objetivo bastante secundário; queriam aprender/absorver conteúdos no qual tinham interesse maior, e acabaram atingindo, por extensão, senão capacidade efetiva, ao menos duas coisas muito importantes; conhecimento e fluência na Língua desejada.

Esse modo de aprender, mesmo possuindo suas falhas e não podendo de forma alguma substituir um curso regular com currículo reconhecido, possui características que podem ser emuladas para garantir um aprendizado extraclasse muito mais proveitoso. Medidas muito simples, e que não roubam o tempo de outras atividades já programadas, como por exemplo, ver filmes na Língua-alvo com legendas na Língua Nativa (e posteriormente, com legendas também na Língua-alvo) e jogar videogames em Língua estrangeira sem pular (todas) as cutscenes e diálogos.

Em pesquisas escolares ou pessoais, quando em wikis e outros sites de conferência, ao se pesquisar um assunto qualquer, é sempre bom conferir os artigos nas suas versões na Língua Nativa e na Língua-alvo, caso existam; mesmo as grandes divergências habitualmente existentes entre as mesmas são fonte de um valioso aprendizado, inclusive nas habilidades de escrita em ambas as línguas.

Além disso, tanto os sebos como as bibliotecas possuem livros em tamanho pequeno, cobrindo todas as áreas de interesse, e por um investimento um pouco maior, existem pocketbooks de qualidade produzidos por variadas editoras, com versões resumidas de todo tipo de obras existentes, dos clássicos da literatura aos filmes de sucesso recente, para todos os níveis de leitura. O uso constante dessas medidas, que não exigem mais esforço do que alguma atenção, permite adquirir um bom vocabulário e intimidade com a Língua (ou Línguas) desejada, enriquecendo ainda mais a participação do aluno nas aulas e cursos que frequenta.''

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

A Arte na vida

Para mim, a Arte como vista –hoje, está sendo sobrevalorizada. Poucas pessoas tem acesso á Arte, como parte integral de seu cotidiano. O que ocorre com os artistas é que eles não são parte da chamada população ''normal'', mas sim seres que tentam se desvencilhar da vivencia social, encarecendo seu trabalho perante os não-artistas.

Eu, como escritor nas horas vagas, noto este fato. Mesmo que tenha começado a escrever meu livro, recebo conselhos das pessoas, dizendo que devo ter cuidado com o que faço, pois entre os autores brasileiros, apenas Jorge Amado e Paulo Coelho puderam dizer que que viveram do que fizeram; logo, devo tentar ser um Jorge Coelho, se quiser ter o mínimo de sucesso.

O que noto, também, é que pelo fato de ninguém levar os artistas a sério, em muitos casos com razão, eles exageram a importância social de seu trabalho, ao mesmo tempo que separam do resto dos afazeres humanos; também desclassificam o que chamam de arte industrial( pagode, axé, etc...), como sendo mero produto mercadológico, e principal inimiga de suas produções, quando na verdade é o pressuposto do alto que preço que suas obras atingem, e é guiada pelos mesmos grupos que os patrocinam. Clama-se há muito tempo a ''decadência'' e a ''pós-decadência'', fazendo-se aparecer de tempos em tempos cavaleiros das letras/pincéis/palcos que prometem salvar o dia.

quinta-feira, 23 de maio de 2019

A Crítica

No passado moderno, anterior a era contemporânea, pós-moderna e pós-pós-moderna, a Literatura era definida como as obras estritamente literárias: texto sobre um suporte fixo, ou tendente a ser fixável, e indexável de uma forma coerente. Assim, existiam não só o alto cânone e as obras de massa, definidos pela crítica especializada e pelo grande público, como passaram a ser aceitas como parte de uma literatura menor, com ‘’l’’ minúsculo, textos meta literários ou referenciais; o jornalismo diário, guias de TV, romances de aeroporto feitos de forma padronizada, roteiros de telenovela e seriados industrializados.

 A contemporaneidade confundiu ainda mais essa situação. A emergência dos filmes interativos,  videogames e da internet, das obras não-lineares e de autoria difusa, mas, ainda assim, imbuídas de enredo e regras de narrativa, tornaram a antiga distinção entre ‘’Literatura’’ e ‘literatura’’ ainda mais questionável, porque nos espaços digitais não raro os grandes críticos emergem da própria massa do público, e não possuem poder para realizar avaliações para realizar avaliações puramente qualitativas que não possam ser questionadas.

 Nos espaços virtuais, as avaliações têm de ser quantitativas, e são confrontadas em pouco tempo com a avaliação da massa consumidora. Nesse cenário, é possível que a distinção entre as obras com valor literário no sentido clássico e as obras de massa permaneça, mas maneira que as primeiras serão oferecidas ao público tenderá a se tornar parecida com as segundas. O fim da sacralidade da crítica significará que o autor não poderá mais usar mais a pura presunção de qualidade como diferencial, e terá de procurar diretamente o público para ser ouvido.

Redação CBMBA- Tecnologia

A tecnologia pode dar suporte a Segurança Pública numa questão bastante óbvia: diminuir a quantidade de pessoal administrativo e permitir co...