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domingo, 26 de novembro de 2023

Adeus, Jayme Figura


 Fiquei sabendo agora a pouco da perda de Jayme Figura. 

Isso termina uma era em Salvador. Me lembro de crescer vendo ele passando em meio aos carros e ônibus nas ruas centrais da cidade, andando em meio aos veículos como se fosse um deles. O que, coberto de latarias de metal, ele praticamente era, se você for pensar bem.  Era o Transformer humano, um Dom Quixote sem cavalo. Ouvi inumeráveis lendas sobre como ele se tornou o que era. Diziam que ele era um cara muito rico, que passou a achar a riqueza sem propósito, antecipou a herança da família, e pegou o pouco que sobrou para morar num sarcófago no Pelourinho.

Outros diziam que era simplesmente um cara que entrou em surto, abandonou o emprego e passou a peregrinar nas ruas da cidade, sempre com o rosto coberto com a máscara de ferro do príncipe de Alexandre Dumas. Havia quem dissesse que ele era casado e a esposa não fazia objeção ou não tinha como se opor ao que ele fazia. Alguma ou nenhuma de todas essas histórias pode ser verdadeira, mas acredito que isso não seja o que de fato interessa. Cheguei a apertar a mão a dele uma vez, há muitos anos, numa lanchonete. Não me lembro se ninguém sequer cobrava o que ele pedia. Ele apertava as mãos de todos, fazia mesuras respeitosas para as moças. Era saudado pelas pessoas, respondia os conhecidos, e em pouco tempo, continuava sua saga soteropolitana. Provavelmente nunca vamos saber porque ele realizava sua performance, ou se sequer encarava seu ato como performance e não como outra coisa. Isso permanecerá debaixo da máscara. 

O que nunca esquecerei é de como até os ônibus tentavam adequar suas rotas para evitar machucá-lo, como se máquinas carregando mais de 40 pessoas em pé e 60 pessoas sentadas fossem menos importantes que um simples andarilho, que seguia seu caminho metálico enquanto as outras pessoas circulavam dentro de caixas de metal e de vidro. Ele poderia estar tentando dizer alguma coisa, ou apenas achava legal andar com uma armadura completa debaixo de um sol de 40 graus. Que isso tenha mais propósito do que boa parte do que estamos fazendo, talvez tenha sido o que ele quis dizer o tempo todo. Adeus, querido Figura.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

No Uber


Estava mais cedo no Uber, indo resolver uma questão de trabalho.

Comecei a conversar com ele mais ou menos na parte final do roteiro. Ele falou que trabalhava com óticas, ajudando a vender óculos aonde as redes tradicionais tinham dificuldade de chegar. 

Por coincidência, estava levando o maravilhoso exemplar da foto, a lupa de Tom Cruise que minha noiva gosta de chamar de "óculos T-1722 Mitonator" porque lembra os óculos usados pelos MAVs e Bots do Capitão nos perfis das redes. 

Bem, eu de fato comprei ele num stand de tiro e suprimentos para policiais e seguranças né. 

Acredito que não e o tipo de lugar que você encontraria um boné do MST, por exemplo, pelo menos não entre os produtos para venda.

Eu estava querendo terminar os afazeres e no bairro, tentar achar uma ótica ou relojoaria aonde o óculos pudesse ser desempenado, no fim do dia. 

No fim da corrida, mostrei o óculos ao motorista, e perguntei se tinham salvação.

Ele me pediu que lhe passasse.

Ofereci emprestar o uso de uma multi-tool que tinha comigo, por sinal comprada na mesma loja de suprimentos, mas ele disse que suas mãos bastavam.

Ele fez rapidamente o que poderia ser descrito como uma mini-sessão de RPG para armações empenadas, em cima da própria base do volante.

Me deu os óculos, consertados, e não me cobrou nada a mais por isso, além do valor da viagem que tinha feito.

Mais cedo, eu tinha planejado ir de ônibus, para economizar no transporte.

Teria tido que sair mais cedo, demorado mais, e talvez não achasse essa oportunidade.

A vida tem dessas coisas estranhas. 

Assim como este motorista, aprendemos várias habilidades, tentamos vários empreendimentos, para fazermos um dia as coisas darem certo para nós e quem gostamos.

Essa é nossa luta na correria de vida. 

Apesar dos percalços, vale a pena.

Agora eu sei porque, ainda assim, nós sorrimos.

Redação CBMBA- Tecnologia

A tecnologia pode dar suporte a Segurança Pública numa questão bastante óbvia: diminuir a quantidade de pessoal administrativo e permitir co...